Aprendizados de um médico no Vale do Silício

Lembro quando há 3 anos um amigo veio me perguntar sobre inteligência artificial (AI) e a medicina. Ele havia lido um artigo sobre um software capaz de diagnosticar doenças oftalmológicas, e queria saber minha opinião. Do alto da minha prepotência médica disse que era impossível um programa substituir um médico, talvez num futuro longínquo.

Após um ano de estudos em Stanford, coração do Vale do Silício, me considero mordido pelo mosquito da inovação e tecnologia. Para nós que estamos no Brasil, assistindo esta revolução de longe, é difícil perceber como algumas tecnologias que imaginávamos distantes já estão acontecendo. Uma frase que ouvi bastante é: “o futuro já existe, ele só está mal distribuído”. E por aqui sobra futuro.

Andando pelas ruas de Palo Alto, vemos carros sem motorista da Waymo, subsidiária da Google, passeando pela cidade. Diversos estabelecimentos comerciais são cashless, pagamento só em cartão ou Apple pay. Abriu em São Francisco uma loja da Amazon sem caixas, você pega os itens nas prateleiras e sai da loja; a cobrança é feita automaticamente.

E a medicina nessa história? Não acreditar que esta revolução tecnológica atingirá a área da saúde é ingenuidade. As mudanças já estão ocorrendo, e num ritmo acelerado. A inovação do cuidado da saúde é centrada na necessidade do paciente, e não na necessidade do médico. É uma diferença que parece sutil, mas é um mindset totalmente diferente do que nós médicos estamos acostumados. Durante este ano participei de um curso de inovação em em Healthcare do centro de Biodesign de Stanford, responsável pela área de inovação da universidade. Foi uma oportunidade incrível para compreender melhor o processo de criação de novas idéias e produtos. Além disso, fui mentor de dois grupos de alunos que desenvolveram projetos ligados a ortopedia. Aprender e ensinar ao mesmo tempo foi enriquecedor.

Durante o curso, conversei com um empreendedor responsável por um dispositivo para tratar terror noturno, condição comum em crianças, que causa pesadelos e noites em claros (das crianças e dos pais). O produto é um sucesso e vende pela Amazon. Perguntei a ele a opinião dos médicos sobre o produto, e se ele havia realizado estudos clínicos. A idéia inicial era fazer os estudos, mas com a correria de uma start-up este plano ficou para trás. Com as consultas curtas, as mães muitas vezes não têm tempo de conversar com o médico sobre este problema. A empresa tem crescido por indicações entre pares, neste caso os pais e mães; e por reviews na Amazon. É a descentralização do conhecimento e do tratamento.

É importante lembrar que nem tudo são flores. Uma cicatriz recente neste mundo é a empresa Theranos, contada no livro Bad Blood, que vale muito a pena ler. Uma nova tecnologia supostamente revolucionária na realização de exames de sangue culminou numa empresa avaliada em bilhões de dólares. Após um escândalo noticiado à exaustão na mídia, ficou claro que se tratava de um castelo de cartas, sem nenhuma comprovação científica.

A realidade brasileira é muito diferente, não podemos nos iludir. Temos muitos desafios a vencer, e não temos a nossa disposição o dinheiro que circula por aqui. Mas temos que lutar para fazer parte do processo e não sermos deixados para trás. O primeiro passo para o médico é abrir a cabeça, descer do pedestal e ter a humildade de ouvir mais as opiniões de outras pessoas, principalmente de outras áreas do conhecimento. Sair da bolha, ouvir novas idéias, discutir e compartilhar; este é o caminho.

Sou um iniciante neste mundo, mas volto ao Brasil com vontade de continuar a aprender e me aprofundar. Um novo ano começou, estou feliz e ansioso com meu retorno ao nosso país. Um excelente 2019 a todos!